Por Eduardo Meurer*
Fotos de Haroldo Palo Jr.

(Geleira Ajax, Ilha Rei George)
As últimas notícias sobre a Região Antártica não são animadoras. Em 18 de fevereiro de 2009 os jornais anunciavam que um gigantesco bloco de gelo de 14 mil quilômetros quadrados – maior que a ilha do Havaí (ou Big Island, como é conhecida) – havia se desprendido da Plataforma de Gelo Wilkins, na Península Antártica. A causa, segundo o Conselho Superior de Pesquisas Científicas, sediado na Espanha, se deve ao aquecimento Global.
Pesquisadores do Conselho afirmaram que a temperatura da água do mar na região está extraordinária e atipicamente mais alta e que a parede de gelo no Mar de Bellinghausen sofreu uma redução de 550 quilômetros em duas semanas. Não é de se estranhar, uma vez que a península experimentou o maior aumento de temperatura registrado isoladamente no planeta nos últimos 50 anos: 0,5°C por década. Trocando em miúdos, menos gelo, menor o habitat para os animais que dele dependem, maiores as alterações em seu ecossistema. Mas não é só isso, como se isso fosse pouco.
Hoje até crianças do ensino fundamental sabem de cor: o derretimento das calotas polares pode aumentar o nível dos oceanos, inundar cidades à beira mar, desbrigar centenas de milhões de pessoas e, pior, alterar correntes oceânicas e mudar dramaticamente o clima da Terra. E isso parece estar acontecendo. Ao que tudo indica, não de maneira tão tímida quanto se pensava – 14 mil quilômetros quadrados de gelo, de uma feita, são algo a se considerar. O próprio IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) acaba de admitir ter sido conservador nas estimativas divulgadas em seus últimos relatórios e aponta um degelo das geleiras antárticas que já soma 114 bilhões de toneladas por ano, com repercussão maior sobre os níveis dos oceanos nos próximos anos.
Mas o “Continente Gelado” não sofre apenas pela ação indireta do homem, através das alterações que provocou no clima global. O aumento do turismo na região e as próprias atividades científicas pelas paragens mais remotas e intocadas do planeta também vêm deixando suas marcas – muitas delas indeléveis.
Alcançada pela primeira vez por navegadores no começo do século XIX, a Antártida atrai cada vez mais turistas de alto poder aquisitivo que sonham em ver de perto – e que podem pagar vultosas cifras por isso – icebergs, banquisas de gelo e seus habitantes: pinguins, focas, leões-marinhos e verdadeiros leviatãs de mais de 15 metros de comprimento, as baleias que nadam livremente por aquelas águas tão azuis quanto geladas.

(Baleia-jubarte ergue a cauda no mar repleto de icebergs)
Se o custo das viagens pode ser pago e gerar lucro, o preço e os prejuízos para o rico ecossistema também devem ser computados. E são: no dia 17 deste mesmo mês de fevereiro as manchetes anunciavam o encalhe do navio de cruzeiro Ocean Nova, com 104 pessoas a bordo, próximo à base antártica argentina de San Martín. Seria fato isolado, não tivesse sido o quarto acidente deste tipo em pouco mais de um ano. Vale lembrar que muito recentemente, no começo de dezembro passado, 122 pessoas, também sem ferimentos, foram resgatadas do navio de cruzeiro Ciudad de Ushuaia, que encalhou na Baía Guillermina. Houve vazamento de combustível – pouco, mas nunca desprezível, dada a fragilidade do meio ambiente na região.
Os outros dois foram o Fram, de bandeira norueguesa, que ficou por pouco tempo à deriva em dezembro de 2007, não acarretando em muito mais que um bom susto a seus 256 passageiros e 70 tripulantes e, o mais grave, o acidente com o Explorer, que colidiu em novembro do mesmo fatídico ano contra um iceberg, também sem vítimas, mas deixando o legado de um derramamento de 185 mil litros de combustível no mar cristalino da Antártida, celeiro de rica biodiversidade.
Porém, engana-se quem pensa que só o turismo causa impactos negativos diretos na região. Paradoxalmente, a atividade científica, apesar de sua incontestável relevância, também deixa suas marcas. É verdade que o estado limpo do ar, da água e do gelo antárticos são de suma importância para a ciência como instrumentos para entender como todo o planeta vem sofrendo alterações – tanto naturais, como resultantes da atividade humana.
Mas, acompanhando as pesquisas que ocorrem há muitas décadas por lá, equipamentos obsoletos ou defeituosos – e isso inclui desde veículos terrestres a aeronaves – , lixo e toda sorte de outros resíduos também foram deixados até nos mais distantes rincões do Continente Gelado.
É claro que na atual época de lapidada consciência ambiental novas diretrizes foram adotadas para mitigar ou minimizar os impactos das atividades nas estações científicas e em suas áreas de abrangência. Tanto que um sistema de licenciamento, auditorias e manejo ambiental foi instituído e incluído na versão do Tratado Antártico (conhecido como Protocolo de Madrid, assinado em 1991 por vários países que possuem bases no continente), deixa claro: os programas nacionais antárticos devem limpar totalmente as áreas abandonadas e remover resíduos produzidos enquanto isso não causar impactos negativos maiores ou danos a monumentos históricos. E isso, boa notícia entre tantas ruins, vem sendo observado. Tanto que bases instaladas por lá vêm lançando mão de tecnologias mais limpas, como a substituição de geradores movidos a combustíveis fósseis por fontes de energia renovável, como a solar e a eólica (dos ventos) e um maior cuidado com a geração e destinação final de resíduos e também tomando medidas que visem perturbar ao mínimo a fauna local.

(Foca-leopardo)
Uma vez coibida – não à totalidade, mas quase – a caça às baleias e a outros mamíferos marinhos, que levou algumas espécies à beira da extinção, o atual maior vilão da exploração humana no Círculo Polar Antártico é a pesca industrial, que vem reduzindo ou esgotando estoques de peixes, de crustáceos e de outros organismos em diversas áreas ao redor do continente e causando a conseqüente mortandade de outros animais que deles dependem. E isso sem contar que o buraco na camada de ozônio, enorme sobre o Continente Antártico, permite maior penetração da radiação ultra-violeta, fatal às comunidades de fitoplâncton, o que pode produzir conseqüências desastrosas a toda a cadeia alimentar regional.
A Antártida ainda é o lugar mais selvagem e um dos mais belos do mundo, mas já não é imaculado como se pensava. E sofre com o desenvolvimento das atividades humanas mais do que qualquer outra região. Alterações no Continente Gelado, como as que vêm acontecendo, podem pôr em risco não só baleias, focas e pinguins, mas todos os habitantes do planeta.

(Pinguim-adélia)
*Eduardo Meurer é gestor ambiental e editor-chefe do Canal Azul TV
Fontes: agências internacionais e Australian Antarctic Division – Governo da Austrália
Foto de abertura: foca-caranguejeira