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O futuro da água doce
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Veja perspectivas para o Brasil e para o mundo
Foto Haroldo Palo Jr.  
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A água no mundo

Por Eduardo Meurer

Fotos de Haroldo Palo Jr.

Estima-se que exista cerca de 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água em todo o planeta Terra. Parece uma cifra enorme, algo difícil de imaginar, não? Sim, de fato é muita água. Não admira que o planeta, visto do espaço, seja predominantemente azul. O problema – para nós, seres humanos – é que cerca de 97% de toda essa água está nos oceanos. Trocando em miúdos, a avassaladora maior parte da água do planeta é salgada demais para se beber ou para se usar na irrigação das lavouras.

Mas espere um minuto! Não vá ver os oceanos como vilões nessa história. Aliás, quer um sinônimo de benevolência? Mar. Ora, foi o mar quem gerou a vida em nosso planeta e é dos oceanos – a partir da fotossíntese realizada principalmente por alguinhas microscópicas – que vêm aproximadamente 90% de todo o oxigênio (nosso gás vital, vale lembrar) disponível na atmosfera. E não tenha dúvida de que são os oceanos os principais agentes do grande ciclo hidrológico (que inclui umidade, chuvas, clima etc.) e são eles que nos mantêm vivos. Mas a água doce é tão importante para nós quanto o oxigênio e também não nos pode faltar. Podemos agüentar até um mês sem comer, porém não sobreviveríamos a mais de uma semana, se tanto, sem ingerir água.

 

Oceano: é caro transformar água salgada em água doce

 

Bem, a mente humana é engenhosa e sempre busca soluções para seus problemas. Caso você já esteja se perguntando se é possível transformar água do mar em água doce, saiba que a resposta é “sim”. Os dessalinizadores – equipamentos que retiram o sal da água através de um sistema de filtragem por osmose reversa – existem há um bom tempo e vêm sendo utilizados com sucesso em algumas localidades à beira-mar. A árida ilha de São Vicente, na república africana do Cabo Verde, não possui água doce – nem um riachozinho sequer – e dessaliniza toda a água que se presta ao consumo de sua comunidade. Acontece que a dessalinização requer um gasto muito grande de energia. Naquela ilha a coisa funciona, afinal sua população é pequena, cerca de 100.000 habitantes. Este sistema, porém, implica em grande ônus para República do Cabo Verde como um todo. Ônus este que é dividido inclusive entre as ilhas daquele país que possuem mananciais. Já no arquipélago de Fernando de Noronha, onde vivem aproximadamente 3.000 pessoas, um aparelho deste tipo – instalado em 1998 – vem resolvendo o problema da escassez de água com sucesso. Entretanto, para localidades à beira-mar muito populosas e para outras que estão longe do litoral, os custos do uso deste recurso seriam proibitivos. Isso quer dizer que a maioria da população mundial tem mesmo de contar apenas com a água doce de fontes subterrâneas, dos lagos e dos rios.

Voltando aos números, a situação da água doce no mundo não é das mais animadoras. Explica-se: de todo aquele 1,4 bilhão de quilômetros cúbicos de água existente no planeta, apenas 0,26% – ou 90.000 quilômetros cúbicos – são de acesso fácil para o consumo do ser humano. Para que você consiga imaginar ou visualizar estes dados, o jornalista Marq de Villiers, em seu livro “Água”, (Ediouro 2002) coloca a coisa assim:

 

“Se toda a água da Terra fosse armazenada em um recipiente de 5 litros, a água doce disponível não encheria uma colher de chá”. 


Época das chuvas forma lagoas no Pantanal

 

Mas há estimativas um bocado mais pessimistas, em que se crê que a quantidade de água doce para consumo seja ainda menor. Some-se a isto a contaminação dos lagos, dos rios, dos aqüíferos e dos lençóis freáticos e acrescente o acelerado aumento da população mundial e está explicado o por quê da crise de água doce prevista pelas Nações Unidas (que haviam proclamado, não por acaso, 2003 o “Ano Internacional da Água Doce”) e por tantas entidades científicas para as próximas décadas. Muitos países já estão vivendo esta crise – e isso se aplica igualmente a parte do Brasil, o mais rico em água doce do mundo.

Resumindo, sem água doce não vivemos e sem o oxigênio que vem do mar, também não. Mais do que uma simples conduta correta, economizar água doce e proteger os ecossistemas aquáticos é garantir nossa própria sobrevivência. E aqui já não estamos mais falando das gerações futuras. Os resultados, positivos ou não, ainda serão vividos pela maioria de nós. Face aos fatos, não há como ver extremo exagero nas palavras daqueles cientistas políticos que afirmam que uma terceira guerra mundial não seria por petróleo, mas por água doce.

A água doce no Brasil

Quando o tema é água doce, pode-se dizer que o Brasil é um país de sorte. O território brasileiro possui um quinto de toda a água doce do mundo. É um dado ótimo. Especialmente se o compararmos com outros menos nobres. Por exemplo: os Estados Unidos são responsáveis por um quarto da poluição do ar em nível mundial.

E o Brasil ainda pode se orgulhar de mais dados favoráveis. Os vinte por cento de toda a água de escoamento global se originam apenas da Bacia Amazônica. São muitos os sistemas fluviais importantes em nosso país – com destaque para o Tocantins, o São Francisco e o Paraná. Lagos e represas também não faltam na terra brasilis.

Por outro lado, isso não é mais motivo para soltar fogos de artifício na arquibancada. Sim, arquibancada. Se você anda pela casa dos 40 anos de idade ou mais, certamente irá lembrar daquele jingle, aquela música de copa do mundo que cantava “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção...” Lembra dos resultados do último Censo? Pois é. O Censo Demográfico 2.000, divulgado no dia 23 de fevereiro de 2004, colocava o Brasil como o quinto país do mundo em população, com nada menos que 169.799.170 habitantes. Isso mesmo. Os 90 milhões de habitantes “em ação” dos anos setenta, no último Censo já passaram a 170 milhões. Agora, no final da primeira década do século XXI, estimam-se cerca de 190 milhões de brasileiros, ou seja, mais do que o dobro dos tempos áureos de Pelé e Rivelino. Mas não precisa voltar tanto ao passado, ainda que o passado aqui colocado não seja dos mais distantes. Pois bem, segundo o Censo de 1991, nossa população era de 146.825.475 habitantes. Arredonde a conta e verá que nos nove anos que separaram o último Censo do anterior, nosso número de compatriotas aumentou em nada menos que 23 milhões. Tudo bem, nosso país é grande e cabemos todos.“Todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil...”

O único problema é que, de acordo com o Atlas do Censo Demográfico, a população residente em áreas urbanas já totalizava 81,25% em 2.000. Por esta ótica, o quinto lugar em população no mundo não significa grande coisa se considerarmos que mais de 150 países tem maior densidade demográfica do que nós. Traduzindo, no Brasil há muita área com pouca gente e outras pequenas áreas com muitíssima gente.

Segundo o mesmo Censo, os municípios com forte predominância de população urbana – dado que não trazia novidade nenhuma – se concentram na região sudeste, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

 

Regiões Norte e Centro-Oeste: quase 85% da água doce do Brasil

 

Vamos aos números: juntas, as regiões Norte e Centro-Oeste somam 84,2% dos recursos hídricos (o rio Amazonas está situado na região Norte, lembra?), 64,1% da área e apenas 13,39% da população do país. A região Nordeste possui 3,3% dos recursos hídricos, 18,3% da área (mais do que o sul e o sudeste juntos) e 28,91% da população. Por fim, o sul e o sudeste reunidos compreendem 12,5% dos recursos hídricos, 17,6% da superfície e 57,7% dos habitantes do país.

Com base nestes dados não é de causar espanto que o chamado “sul maravilha” tenha se juntado ao historicamente árido nordeste no grupo das regiões que sofrem com a escassez de água. Garantir o abastecimento para tanta gente em uma área tão pequena e com rios tão poluídos pelo lançamento de dejetos humanos e de efluentes industriais já se tornou um problema de proporções brutais. O clima mudou e os níveis dos reservatórios insistem há muito em se manter baixos. O racionamento não só é iminente, como já vem sendo vivido – e sentido na pele e nas torneiras de muitos de nós brasileiros. As campanhas de conscientização lembram a população do Estado de São Paulo – a maior concentração de gente do país –, todos os dias, da gravidade da situação. Está na TV, no rádio, nos outdoors e até em adesivos e pôsteres estrategicamente espalhados por banheiros de restaurantes e de outros estabelecimentos. Só não vê, não se toca e não faz nada a respeito quem não quer. Então, mãos à obra! Cuidar bem da água doce e economizá-la, mais do que uma questão de consciência, é hoje questão de sobrevivência.

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